4D PA
4D PAULO AZEVEDO
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Ciclos Criativos

Quatro ciclos e duas transições compõem o processo criativo e pedagógico de Paulo Azevedo.
Uma metodologia única nascida do desastre transformado em arte.

Quatro ciclos compõem o processo criativo de Paulo Azevedo, tendo cada um deles as respectivas células ou conceitos que deram seus distintos títulos. É também a partir das mesmas que as diferentes obras vão sendo concebidas e catalogadas.

Contexto completo

No entanto, antes de conhecer como se dá essa classificação e a sua respectiva cronologia, é importante observar aquilo que o autor denominou como "Ante-ciclo" - estrutura ou pilotis que vai de 1995 a 1999 e que como o nome já indica é uma construção anterior a tal sistematização que oferece suporte pro que virá adiante.

A partir daí um caldeirão de acões no entorno desses ciclos, que aqui detalharemos, vai gerando uma "aura estética" ao nascimento das obras e projetos. Trabalhos estes que deram a Paulo o mérito de haver construído um repertório único com sua assinatura. Nas palavras do coreógrafo e bailarino hispano-brasileiro Glaub da Silva "Existem dois tipos de artistas; aquele que vai evoluir uma técnica já pertencente a um determinado repertório e outro que funda um novo repertório. Paulo pertence ao segundo tipo".

Complementa o próprio autor: "criei algo para que eu assim como tantos outros desajustados pudessem se identificar e acolá conhecer a liberdade e a potência que habita em cada corpo e cada voz. Era muito triste só haver o padrão como opção. Seria um desserviço à diversidade estética. Tão logo, desobedecemos a fôrma e eclodiram as formas. Era urgente ser feliz com seu corpo. A dança, mas não apenas ela, foi se tornando uma ferramenta de emancipação".

1995-1999 · Ante-ciclo
1995-1999

Ante-ciclo

Apesar de estar a metodologia disposta em quatro ciclos criativos, é a data de 17 de agosto de 1995 considerada como sendo aquela que dá o marco temporal de início da carreira do autor. Neste dia, afirma que olhando pela janela da garagem foi provocado pela sua imagem que, uma vez refletida nos pequenos espelhos, formava-lhe o mosaico. Não sabia exatamente o que e nem como a totalidade da epifania o conduziria adiante; mas já sentia de algum modo que poderia ressignificar fragmentações e estereótipos. Estava ali o preâmbulo da abertura para se criar outros mundos possíveis.

Mas, embora, rapidamente, ganhar certa projeção pela sua capacidade laborativa e documental, chegando a ministrar uma média de doze aulas diariamente; tão logo sua atividade foi precocemente interrompida em 09 de agosto de 1997, devido a um grave acidente de carro sofrido próximo trevo da BR-101/direção Rio de Janeiro. Mesmo assim, ainda sem saber como poderia ou não se recuperar por completo, optou por manter parte da sua atividade e passou a dirigir os ensaios (em cadeira de rodas), nesta mesma garagem, haja vista a impossibilidade de sair de casa.

No fim desse ano até meados de 98, ele junto ao grupo "Beat Street Dance Company" criam um primeiro espetáculo intitulado "Medo". Pode-se inferir que foi neste período que nasceu o embrião de sua metodologia, com o postulado dos "mapas mentais coreográficos", fazendo com que cada dançarino leia sua proposta pela explicação e não pela reprodução dos movimentos, uma vez que ele não podia demonstra-los. Nesses mapas, Paulo monta sua primeira cartografia a medida que a partir de um único estímulo, tem-se múltiplas respostas sobre o mesmo problema cênico.

Tal insight metodológico se confirma e amplia sua repicabilidade a partir de 1999, quando ele após voltar a andar (de modo mais firme), ministra sua primeira aula para pessoas com deficiências no cvi-Macaé. Em seguida, ele funda a Escola Dança de Rua Paulo Azevedo (1999) e as Cias DI (1999) e Membros (2000). Mais a frente o projeto GREM (2002) e o CIEM-h² (2004). Desse caldeirão, nascerão os ciclos e as obras/projetos que deram a Paulo o mérito de construir um repertório único no mundo.

É aliás desse instante que ele escreve a célebre frase na sua cabeceira; a qual o dará norte e movéncia até os dias atuais: é necessário transformar o desastre em arte.

1999-2011 · 1° Ciclo — Queda
1999-2011

1° Ciclo — Queda

Seria um absurdo acreditar que a "Queda", unidade celular que dá inicio à pesquisa cênica profissional na carreira do autor tenha sido pré-programada como parte de uma técnica a ser desenvolvida. Nada disso, tudo mentira. A "Queda" nasceu do desajuste, do erro, da limitação, do tombo, do apartheid simbólico-cultural interior-capital e do acidente físico-filosófico.

Desse modo, podemos situar este período indo do ano de 1999 até 2011, tendo como principais interlocutoras as Companhias Membros e DI; ambas fundadas na cidade de Macaé/RJ, dentro das instalações do cvi-Centro de Vida Independente.

Se por um lado os atores sociais que compunham a DI eram em sua maioria pessoas com deficiências; por outro lado àqueles que elencavam a Cia Membros era provenientes de escolas públicas. O que isso quer dizer? Significa pontuar que tanto na DI quanto na Membros a falta de acesso ao mundo artistico que precede o ingresso nas respectivas companhias se transformaram no argumento e nas linhas estéticas adotadas a posteriori.

A "queda" estava presente no corpo do intérprete que uma vez com múltiplas deficiências e, não obstante a ausência de tônus, fazia com que às vezes o corpo caísse em queda livre, desavisadamente, ao romance inicial com o chão. Outrora, também presente se fazia em cada guri ou guria vindo destas escolas que tentava de modo estapafúrdio realizar uma acrobacia ou 'power move" e se estabacava por completo. O chão era o lugar do pouso, também da quase morte desse corpo se arrebentando.

Era, então enquanto função pedagógica necessária que se investigasse este movimento de alto impacto, tão perigoso, tão arrebatador e possível de mínimo adestramento. No devir, o "tombar-se" poderia se tornar uma técnica. Assim o fez e, em tão pouco tempo arrebatou admiradores no país e no mundo.

Mas, é obvio que a partir da "queda", diariamente, aperfeiçoada, cada "tombo" passa a doer mais nos olhos de quem vê do que no corpo de quem sente. Do contrário de tal magia, como seria possivel realizá-la por tanto tempo, em tantos lugares, com tamanha eficácia, um alto impacto e o menor esforço? Não seria! E a essa propriedade, somente depois de muita investigação, ousamos chamar de técnica!

E é dessa técnica que surge a primeira trilogia, composta por "Raio-X" (2002); "Febre" (2007) e "Medo" (2009/10), tendo sempre uma parede como cenário que a cada uma destas composições vai adotando uma cor e um significado socioesteticopolitico. Para além do palco, a relação com o espaço urbano era parte de uma estratégia ou inquietude a fim de mover o "habitus macaense".

É assim que em 2003 é composta a obra "Meio-fio", a qual acaba sendo responsável por internacionalizar a pesquisa deste ciclo. De 2004 a 2011, estas companhias atuaram em mais de 300 cidades pelo mundo; estando a Membros mais pela Europa e a DI arrebatando o Brasil.

2011-2014 · Transição [A]
2011-2014

Transição [A]

No ano de 2011, com o encerramento das atividades das Cias Membros e DI é decretado o fim do 1° ciclo. Já em 2012, mais precisamente no dia 09 de agosto, Paulo funda a Cia Gente [Rede de Protagonismos & Criação], a fim de unificar parte de suas pesquisas, bem como agir diretamente em outra cidade. Macaé ficava como parte de um território memorável e chegava a vez de atuar de modo mais enfático na capital Rio de Janeiro.

Nesse mesmo, ele ingressa no programa de Pós-Graduação da PUC para o processo de Doutoramento em Antropologia. Sem haver uma sede própria, retorna sua práxis para a urbe, adotando definitivamente a rua como "palco". Desse período nascem dois relevantes projetos: "Tetralogia Cidade" e "Tagarela", ambos em 2013 e, retoma-se o contato com parte do elenco da DI, recriando suas obras de repertório, com o acréscimo de outras cenas em "Elementos disponíveis para outras composições" [2014/15].

2012-2020 · 2° Ciclo — Desequilíbrio
2012-2020

2° Ciclo — Desequilíbrio

O que vem depois da "Queda"? A primeira pergunta não parecia fazer sentido quando Paulo observava o corpo caído anunciando uma espécie de desfecho para dar continuidade à pesquisa. Foi então que ele mudou unidade cronológica da mesma, refazendo-a: o que vem antes de uma queda? Rapidamente respondeu: o desequilíbrio.

Em tantas aulas e palestras, Paulo afirmou que se tivesse que recomeçar os ciclos, iniciaria pelo "Desequilíbrio" e somente depois viria a "Queda". Acontece que todavia o desequilíbrio é silencioso. Portanto, a queda chamou sua maior atenção, afinal a "juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante".

Todavia, o Desequilíbrio sempre esteve presente no seu dia a dia. Ele o vivenciou a todo instante até voltar a andar no pós acidente; estava em cada aluno com deficiência visual que ia se escorando pelas paredes do cvi-Macaé até à sala de dança, quando não querida usar as bengalas. Foi Hildemar que numa dessas situações aludiu a Paulo "observe o desequilibrio pode ser o seu melhor mocimento". Ele, esse silencioso movimento tão potente, sempre esteve lá. Também tão presente foi na infância de Hiago.

Desse ciclo, Paulo escreve sua segunda trilogia sobre o "corpo-violência", com "mÒdio" (2016); "bruTal" (2018) e "verTigem" (2020), fundando uma "Estética do Desequilíbrio", junto aos interlocutores que se tornam em pouco tempo a mola propulsora na Cia Gente. Em cada obra vale dizer o "desequilíbrio" aparece por um viés diferentemente fundamentado; desde sua perspectiva de fisicalidade até explorar sua condição moral a partir de uma dada economia das aparências e seus efeitos.

Em paralelo tal estudo é também levado para outros ambientes, quando então Paulo decide voltar à rua como parte de um processo de criação em paisagens urbanas. Mas era mais que isso, pois uma vez não tendo mais uma sede fixa como havia em Macaé no 1° ciclo, a rua passava a ser seu escritório na bela e temida Rio de Janeiro. É desse instante que funda outra estética intitulada "A cidade como obra de arte" e nasce o projeto "Fio do Meio", com o ato n°1 "A crise das borboletas", estreando na Bienal do Sesc em Campinas/SP, no ano de 2017.

2020-2023 · 3° Ciclo — Pausa
2020-2023

3° Ciclo — Pausa

Nas palavras do próprio autor "não existe um ciclo mais importante do que o outro, por isso se chamam ciclos. Cada um tem seu início e fim e lega um aprendizado e descoberta, dando continuidade ao registro e ao processo a serviço de uma obra que se escreve dia a dia".

Desse modo cada ciclo tem um contexto, uma época, seus protagnistas, seu lócus, seus projetos e criações que vão justamente compor seu conteúdo ou repertório. Tratando-se, de modo particular da "Pausa", sua pré-redação começou no fim de 2019, mas é, todavia, no ano seguinte que a proposta ganha seu tônus, quando Paulo percebe que seu insight coincide com uma era atípica que nos é imposta: a pandemia da Covid-19.

Tal insight diz o seguinte: "a correria, termo recorrentemente utilizado para designar que não há tempo para se fazer nada, é um sistema de automação da vida moderna, a fim de que não se pense na vida. Ao ocorrer de fora para dentro passa a regular todo o corpo como parte de uma tática totalitária, minimizando o mesmo a sua função utilitária para que esse sistema irrefletido se autoreproduza sem haver resistência ao seu triunfo". Paulo dirá "PAUSA"!

A "Pausa" vai então perseguir uma célula criativa que ainda não é tão clara pro autor qual seria. Amante das orações e suas pontuações, é então que nesse perscrutar que Paulo observa uma respiração no texto da vida. Ali reencontra a vírgula e alenta que dependendo onde a coloque todo o sentido da frase pode ser alterado. Nascia ali uma "ode à lentidão" com a composição de "Vírgula" estreando na sua versão final em meados de 2022.

Nela, o corpo (não necessariamente lento em sua velocidade) volta a reger sua ação no tempo e no espaço como protagonista fazendo da pausa um ato de resistência, voltando a regular a vida agora de dentro para fora; permeando o resabor de ser corpo fora da paura deixada pelos rastros e impactos da pandemia.

Além de "Virgula", merecem notoriedade a criação do ato n°2 de "Fio do Meio" que com o subtítulo "A travessia desacreditada do esbarrão" reecebe o prêmio Funarte de Dança e atua em dez instituições socioeducativas no Rio de Janeiro e em São Paulo e o projeto "Brasil sem Ponto Final" que atua nas cinco regiões nacionais com o patrocínio do Instituto Cultural Vale.

2023-2025 · Transição [B]
2023-2025

Transição [B]

Nesse período datado a partir do fim de 2023, Paulo percebe a necessidade de se repensar alguns aspectos do seu trabalho e sua relação com os Coletivos. Assim, utiliza, sobretudo, o ano de 2024 para elaborar o novo ciclo e estabelecer outras formas de convivência e direcão.

Primeiramente, retoca a titulação da Cia Gente e, sem ousar vaidades brutas, passa a adotar o seu nome junto a tal chancela; tornando-se Cia Gente | Paulo Azevedo. Dois motivos alicerçam tal mudança: a) após fatos reincidentes, observou-se que o nome do criador estava sendo omitido por parte de integrantes que atuam na Cia em suas publicações, o que rompia com o alento primário de reconhecimento a cada protagonista, sobretudo, levando-se em consideração que se tratava do fundador da metodologia em questão; b) tendo em vista como se desenvolve o diagrama da publicidade internacional, era necessário evidenciar o nome do criador em destaque; como em geral ocorre fora do país.

Outro ponto a destacar desse período está na reflexão sobre o "sentido" e o "sentir". É quando então Paulo ratifica o alento da 'experiência fundadora', na qual se destaca a perspectiva de que mais do que mover coisas e pessoas, ou a si mesmo, é preciso refazer a pergunta central sobre a prática efetiva do "deslocamento": Por quê me movo? Se assim o agente ou ator social da 'experiência' conseguir responder tal indagação ou ao menos tenta-la, poderá então ser desafiado às demais a ela subordinadas: como me movo? Para onde me movo? Por quem ou com quem me movo?

Desse período de Transição, revigora-se o processo desenhado em "Elementos disponíveis para outras composições", que passa a atuar no Estado do Rio de Janeiro por meio da contemplação em distintos editais. Ainda assim são iniciados outros dois projetos, sendo um solo e um duo; respectivamente "Rachadura" e "The Wall". Por fim, desse período é relevante mencionar a apresentação de "Vertigem" no Festival D'Avignon, na França que abre de vez as portas para a retomada do autor na carreira internacional.

2025... · 4° Ciclo — Movência
2025...

4° Ciclo — Movência

O colchete aberto determina por conseguinte o período em aberto. Encontrando-se nesta fase, o 4° ciclo de criação de Paulo é motivado pelas respostas obtidas na fase de transição anterior. Alinhados pelo "sentir" e o "sentido" do "porquê se mover", redige a unidade "Movência"; isto é; o "Desejo movido".

Para isso, reaprende algumas direções graças à "Pausa"; recoloca o corpo no espaço mediante a potência silenciosa do "Desequilíbrio" e alude à importância da "Queda" tanto para o movimento quanto para palavra. Existe no repertório de Paulo uma palavra que é movida em 'lançamento vertical para cima' e outra que conhece bem o vazio da 'queda livre'. Paulo perscruta agora uma "palavra física" no espaço e um "movimento químico" no tempo.

Compreendendo que todos os ciclos até o dado instante foram fundamentais para conceber a "Movência", Paulo adota, no entanto, outro tom político de sua gramática antropocênica. Ao invés do "Drama", recorre à "Sátira" e entende que o "riso" é o ato de maior resistência dentre todos. Não obstante, sabe-se bem que "nenhum tirano suporta uma gargalhada que dê três voltas em torno de si mesmo".

Reablitado o desejo, saindo o mesmo mais forte após compreender o que quer dizer a 'rachadura' em cada parede; Paulo escreve, alegremente, um manifesto da cumplicidade e o intitula de "tamUjUntU"; projeto/obra que vai caracterizar sua retomada definitiva à carreira internacional; após longa data de 'tragédias'.

Também nesse ciclo, destaque para a realização do Circuito Tagarela que se torna "Festival TAGARELA" e criação dos atos n°3 e n°4 de "Fio do Meio".